“Por que Deus não fala comigo? Se Ele pelo menos tossisse!” – Woody Allen

Eu vivi um ano no norte de Itália, em Vittorio Veneto, perto de Treviso. No parapeito do lado de fora da janela do meu quarto havia uma plantinha num vaso que o último inquilino lá havia deixado. Era Verão. Eu tomei aquela vida frágil nas mãos e regava-a diariamente. A plantinha crescia devagar.

Chegaram os primeiros frios do Outono e as janelas de vidro duplo foram encerradas e seladas para o inverno. A plantinha ficou lá fora. Chegou o frio, tivemos 15 graus negativos e muita neve.

A vida correu com normalidade entre o estudo, o trabalho e a diversão. Esqueci o meu compromisso comigo próprio de tomar conta da plantinha e só me lembrava dela quando a via lá fora, através da janela fechada. Ela secou, o vaso ficou nu com excepção de um pauzinho seco que saia da terra.

Eu sentia-me culpado quando olhava para o que tinha sido uma planta.

Eu tinha-a deixado morrer somente por preguiça.

Mesmo assim não tirei o vaso do parapeito comandado pela mesma inércia que me fez deixar de cuidá-la.

O tempo foi passando, a pouco e pouco o frio foi sendo empurrado pelo sol dos pré-Alpes, a neve começou a derreter. Lá fora os descampados começavam a cobrir-se de uma relva verde vivo, toda certinha como se tivesse sido aparada por um cortador de relva.

Um dia, acordei de manhã, entrava um sol ofuscante pela janela. Levantei-me e fui espreitar lá para fora. Vi os prédios em frente e para lá deles os cumes das montanhas. Tudo muito limpo e brilhante, ainda com restos de neve aqui e ali.

Quando estava para voltar para o quarto os olhos passaram pelo vaso que me tinha habituado a ver ressequido, com um pau seco espetado.

Mas desta vez havia novidade:

uma folhinha minúscula tinha despontado de um nódulo ainda mais pequeno que eu não tinha visto antes. Mal se via, mas o verde vivo contrastava tanto com o terra seca do vaso que era impossível não a ver debaixo daquele sol luminoso.

Abri a janela, peguei no vaso e inconscientemente pedi desculpas, lembro-me como se fosse hoje.

Senti-me perdoado por ter deixado morrer aquela planta e decidi não voltar a deixar que a inércia tomasse conta das minhas opções nem das responsabilidades que eu escolhi serem as minhas.

Durante os meses seguintes tomei conta dela como de um amigo doente. Ao fim de umas duas semanas as folhinhas tinham-se multiplicado e, passado um mês, o vasinho estava cheio de florzinhas de um azul intenso, muito pequeninas e muito perfeitas.

Deus tinha tossido para mim.

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