“Nós não herdamos uma identidade, temos de a inventar nós mesmos”. – Barry Schwartz

Fixa bem o que te vou dizer porque é tão verdade como as mais sólidas verdades que alguma vez se cruzarão no teu caminho: A cada dia, de manhã, tu tomas uma decisão de identidade para o teu dia.

Mesmo que tomes a mesma decisão muitos dias consecutivos e cries a ilusão de que tu és mesmo assim, que a tua identidade é de uma determinada maneira, essa escolha é algo que fazes diariamente.

Já me conheces e sabes que eu gosto de dar exemplos.

Tu estás a dormir. É de manhã cedo e começas a tomar consciência do mundo exterior a ti depois de teres passado uma série de horas a "olhar para dentro". No teu sono, tinhas ido de férias, falado com amigos distantes e passado um bom bocado.

Aí dentro o teu problema com o pequeno acidente automóvel de ontem à tarde nem sequer existe, mas agora que estás a retomar a consciência, esse bandido que não quer assumir a responsabilidade vem-te à memória, assim como a opinião de "especialista" do teu vizinho que te disse que se fosse com ele, partia-lhe os dentes. O homem do reboque diz que tens aí uns 3 ou 4 mil euros de reparação (sim, é verdade, ele não sabe nada de bate-chapas) e a polícia, chamada ao local, fez uns rabiscos mal desenhados num papel que tu achas que não figuram o que de facto aconteceu. Sentes-te ao mesmo tempo cheio de raiva e impotente, encurralado.

Depois pensas no teu gerente de conta que te ligou porque tens lá um cheque careca, ou no teu patrão que te anda a perseguir sem razão aparente. Achas que ele quer que te despeças tu mesmo, para não ter de te pagar indemnização.

"Eu não me consigo defender, todos querem e podem usar e abusar de mim, a minha vida é um monte de problemas. Quem me dera fugir!"

As horas que passaste a dormir e a sensação agradável de estar de férias com os amigos já não é nem sequer uma lembrança. Em 30 segundos reabsorveste "do ar" todas as porcarias que tinhas conseguido afastar por umas horas e quando olhas ao espelho para fazer a barba não gostas do que vês: peso a mais, sonhos adiados, solidão, medo do futuro. Se pudesses farias "reset" e começarias a tua vida de novo. "Porque é que eu sou assim?" ou "porque é que isto me acontece?" são perguntas comuns. Mas não te preocupes porque o que te acontece depende em boa medida de ti mesmo e o que tu és depende a 100% de ti mesmo.

O teu dia está envenenado.

Agora vou contar a mesma história, mas tu vais fazer algo um pouco diferente.

As mesmas horas de sono, o mesmo sonho. Na véspera o mesmo acidente, no banco o mesmo cheque e o mesmo telefonema, no emprego o mesmo patrão.

Acordas e vem-te à memória o acidente de ontem, o responsável não quer assumir as responsabilidades veio a polícia, o reboque, o vizinho, cada um com a sua opinião. Tu ligaste à tua seguradora e ao teu advogado para tratarem desse assunto porque hoje tens algo entusiasmante para fazer.

Porém assim que pensas nesse algo, lembras-te do cheque no banco e fazes uma nota mental para ligares tu ao gerente e não esperares que seja ele a ligar, contudo primeiro vais saber de onde virá o dinheiro para cobrir a conta. Se não achares uma solução vais lá e negoceias um plafond.

Em seguida, sorris porque lembras-te de que tens uma coisa entusiasmante para fazer hoje mas logo te lembras do patrão. Achas que ele te quer despedir mas não quer pagar indemnização. Por isso está a fazer-te a vida negra a ver se te despedes. Pensas que ele está a ser idiota porque irás embora de boa vontade e estás já a preparar a tua saída. Mas isso acontecerá quando tu quiseres e não quando lhe convir a ele.

Voltas a pensar na coisa entusiasmante que tens hoje para fazer e sorris.

Olhas para o espelho enquanto fazes a barba e pensas: "bolas que estou com peso a mais, vou arranjar uma hora para fazer exercício", mas logo te lembras da diversão semanal com a família e os amigos, em volta da mesa, com um bom vinho e petiscos e achas que o teu peso a mais até é por uma "boa causa".

Ainda antes de saíres de casa pegas no telefone e tratas de todos os assuntos chatos: advogado, contabilista, gerente bancário, seguradora: 15 minutos.

Depois sais e vais tratar da tua vida: o teu trabalho e aquilo especial e entusiasmante que tens hoje para fazer.

Reparaste no ingrediente secreto? Naquilo que teve o condão de interromper os ciclos destrutivos dos teus pensamentos? “Algo entusiasmante para fazer”.

O que é isto? Para uns pode ser uma actividade desportiva, ou estar com uma certa pessoa, ou escrever, ou pintar, ou trabalhar num negócio próprio, ou numa acção social… não sei, mas é uma coisa que te enche de prazer e que irás colocar no teu pensamento logo pela manhã (e à noite enquanto estás a adormecer) e que tem a capacidade de fazer magia com a tua identidade.

Tu não és o que tu fazes, nem o que os outros pensam de ti (reputação), nem o que tu mesmo pensas de ti e não és o que tu tens.

A tua identidade diária é a que tu quiseres. Não existe nenhum artigo na Constituição da República que diga que tu tens de ser sempre igual, todos os dias, e que não possas reinventar-te diariamente a teu bel-prazer.

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