“Nós somos as histórias que contamos a nós mesmos.” – Shekhar Kapur

Na minha indústria é costume dizer-se que nós somos contadores de histórias. E somos. O nosso público primeiro somos nós mesmos e temos a tendência de nos modelarmos pelo molde dos nossos heróis.

Fiz um mini-curso de escrita magnética há uns tempos atrás e, no processo de preparação desse curso cruzei-me com uma autoridade na arte da escrita eficaz, no âmbito do marketing.

“Quando estás a escrever com o objectivo de levar o teu leitor a agir, deves dirigir-te ao miúdo de 12 anos que está dentro dele.”

Na altura aquilo levou-me numa direcção inesperada. Foi uma pista valiosíssima da qual ainda não retirei todas as consequências. Mas já tirei algumas conclusões.

A primeira conclusão é que aquela ideia de que temos uma criança dentro de nós é mesmo verdadeira. As idades da vida não vão sendo substituídas, mas acumuladas: uma criança de 5 anos, é na verdade uma de 1, de 2, de 3, de 4 e de 5. Quando fazes 12 anos, acumulas todas as idades desde de nasceste. Quando fazes 20, 30 ou 40, tens todas as outras dentro de ti, como as camadas de uma cebola.

Cada fase da tua vida desempenhou um papel na altura devida, e, se souberes como, pode desempenhar ainda um papel extraordinário na tua vida actual. Mas não é sobre isso que quero falar hoje, estou a dispersar-me…

O importante agora é teres a consciência de que manténs dentro de ti o miúdo, ou miúda, de 12 anos. Porquê 12 anos?

Porque é por essa altura que começas a ser independente, ainda criança o suficiente para saberes que alguém toma conta de ti para o que der e vier, mas já adulto que chegue para quereres as tuas coisas, teres os teus planos e os teus sonhos. Tudo isto misturado com uma coragem infinita, absoluta falta de limitações (tudo é possível) e uma emoção arrebatadora associada com as coisas mais simples (ai tantas hormonas!…).

Nesta altura consegues viver as tuas histórias de forma tão vívida que é como se fossem reais. Estás a jogar à bola e és mesmo o Cristiano Ronaldo (no meu tempo era o Eusébio), andas com uma espada de plástico e és o Lagarder, uma guitarra barata e és o Eric Clapton. Estás a jogar um jogo na Playstation e és mesmo o Spider Man. Até sentes as vertigens da velocidade enquanto voas de edifício em edifício.

É esta capacidade de contares histórias a ti mesmo que vai moldando quem tu és. Quando ajudas a vizinha velhinha, estás a ver-te no papel do SuperHomem, se lutas para defender um colega na escola de uns rufias mais fortes que ele, estás a sentir-te como o Batman.

Tudo isto faz sentido e, como disse antes, mesmo que tenhas 20 ou 30 ou 40 ou 50 ou mais anos, continuas a ter o miúdo de 12 aí dentro, continuas a contar histórias a ti mesmo, a ter os teus heróis e vilões e a modelar a tua vida por estes moldes, como sempre fizeste.

Se começares agora a contar a história do teu dia de ontem, não somente as acções mas também as emoções e o seu significado, verás que não há nenhuma diferença entre a tua história e a dos teus heróis.

Vais confrontar-te com dúvidas, medos, actos de coragem, de humildade e arrogância, um enredo de acções e relações entre as pessoas, um significado psicológico, emocional, outro espiritual, como nos melhores romances de aventuras que leste ou nos melhores filmes de acção que já viste.

Nessa história o herói és tu e o resultado dessa aventura chama-se vida.

Escreve essa história, não somente a que já passou mas principalmente o guião daquilo que está para vir. Coloca efectivamente isso tudo no papel. É assim que te tornas autor, actor e herói e é assim que te tornas dono do teu futuro.

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