“Os relógios assassinam o tempo…o tempo está morto enquanto está a ser trucidado por pequenas rodas dentadas; só quando o relógio pára é que o tempo volta à vida.” – William Faulkner

Aristóteles dizia que o “tempo é a medida do movimento“, ou seja, o tempo e o movimento rodam em torno um do outro.

De todas as riquezas que possuis a maior delas é o tempo.

Não é o dinheiro, que é uma óptima riqueza, nem a saúde, que também não é nada má, nem o amor, nem as relações, nem o trabalho, nem o descanso, nem a qualidade de vida. É o tempo.

O problema é que o tempo se gasta, correcto?

Cada segundo é insubstituível, certo?

Sim, se pensares no tempo medido pelo relógio, que mede o que fazes (o teu movimento). Esse é o tempo que se gasta.

Mas há um outro tempo, um que não se gasta, um tempo vivo que escapa às mandíbulas dentadas do relógio. Este é o tempo da alma.

Estou a ver na tua cara que não fui suficientemente claro. Ok, vou tentar de novo:

há um tempo do corpo, ocupado em “fazer coisas”, medido por relógios, rotações e translações da Terra. Este tempo começa no momento em que um espermatozóide vencedor comemora a vitória numa saída à noite com a bela “óvula”. Começa a contagem: divisão celular, dias, semanas, ritmo, meses, nascimento, hora de comer, de dormir, de fazer umas gracinhas, de comer, de dormir, de fazer mais umas gracinhas, e assim durante 80 anos: comer, dormir e fazer gracinhas. Bem, estas gracinhas vão-se modificando: chamam-se andar, falar, aprender, trabalhar, fazer amor, ganhar dinheiro, atingir objectivos, etc. São tudo gracinhas que iniciamos com o primeiro sorriso e terminamos com a o ultimo suspiro.

Este é o tempo linear, irrepetível, nascemos com um saco dele, mas o saco está roto e deixa cair um grãozinho de cada vez. Quando deres por isso está vazio. Então, para mantermos a ilusão de que dominamos o saco, inventámos umas máquinas que medem esses grãozinhos a que chamámos relógios.

É como um terramoto: destruição, pânico, mortos e feridos, edifícios desabados, fendas no chão. Uma tragédia. Mas depois de sabermos que o epicentro foi a 200 milhas de tal sítio, e teve uma magnitude de tal ponto tal na escala de Richter, deixou de parecer tão dramático. É por esse motivo que se dão nomes aos furacões, para nos dar a ilusão que os controlamos. E, já agora, é também por esse motivo que na Bíblia é o Homem quem dá os nomes a toda a criação (simbolizando o seu domínio sobre ela) e é também por isso que, ainda na Bíblia judaica, o nome de Deus não pode ser pronunciado, porque ninguém domina a Deus.

Bem, dispersei-me um pouco, mas vou continuar com o tempo.

Inventámos os relógios para dominar o tempo e colocá-lo ao nosso serviço.

Este vinga-se, esgotando-se.

Nele vivem os horários e calendários, os afazeres e o trabalho árduo. A “transpiração”.

Mas há um outro tempo, um que escapa aos relógios.

Há cientistas que lhe chamam “tempo psicológico” para dar a ideia de que, dando-lhe um nome, o controlam, mas este tempo é incontrolável. Já o experimentaste quando viveste uma experiência arrebatadora. Os relógios desapareceram, as regras modificaram-se. Quando deste conta tinham passado 2 horas, mas para ti não passaram mais de uns minutos, ou então, experimentaste tantas coisas e, afinal, só passaram uns poucos minutos, quando finalmente olhas para o relógio.

Este é o tempo da alma, o tempo da criatividade, da paixão e do entusiasmo e, principalmente da “inspiração”, “in-spiração”, “em-espírito”.

O melhor que este tempo tem é que não se esgota e, como não tem fim, não pode ser medido.

Nos meus tempos de estudante de guitarra clássica tive um professor alemão chamado Gotze. Ele dizia a frase de Segóvia que entrou no vocabulário comum: “O sucesso é 10% de inspiração e 90% de transpiração“. Esta frase é muitas vezes usada para desvalorizar o talento e demonstrar que basta o trabalho árduo para se ser bem sucedido, mas não é isso que diz. O que diz é que precisas do tempo finito do relógio, o tempo do corpo, da acção, da transpiração, mas precisas também do tempo da alma, da criatividade, da inspiração, de viver “in-spiritu”, “em-espírito”.

Não sei bem como irás tu fazer isto, mas esse é realmente um problema teu.

Estou certo que não terás problemas em descobrir uma forma de agregar um pouco de “inspiração” à tua “transpiração”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.