“Quando tenho de escolher entre ter razão e ser amável, eu escolho sempre ser amável.” – Wayne Dyer

Quando eu era adolescente um padre (italiano, missionário, de nome Pierino Plona) explicou-me que o pecado original era muito feio e muito poderoso. Tanto que ficou marcado na nossa natureza humana e nos torna muito infelizes.

Como eu pensava que o pecado original tinha algo a ver com o sexo sob a imagem da maçã que a Eva deu a Adão, fiquei confuso com a afirmação do padre e perguntei-lhe “afinal o que é o pecado original?” ao que ele respondeu:

– Deus tinha proibido o Adão de comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Veio a serpente e convenceu a mulher a dar um desses frutos ao homem. Ele comeu e foi apanhado. Então Deus perguntou-lhe:”Adão! Então tu comeste da árvore proibida!? Desobedeceste-me!” – Ao que Adão respondeu: “A culpa é da mulher que puseste ao meu lado, ela é que me deu o fruto para comer.” Então Deus perguntou à mulher: “Eva o que foste tu fazer?!” e a Eva justificou-se: Foi a serpente é que me convenceu”. Qual foi o pecado aqui que os levou a serem expulsos do paraíso? Nenhum deles assumiu a responsabilidade e tratou de defender o próprio ego e atirar as culpas para cima de outro.”

E não é que o Pierino tinha mesmo razão!?

Em cada discussão doméstica, entre familiares, de trabalho, entre amigos e vizinhos, o que está subjacente é o “eu tenho razão”, “ele ou ela está a ser injusto”, “porque é que me está a apontar este defeito?”.

E esta atitude entranhada nos genes deu origem ao famoso ditado: “quem não se sente não é filho de boa gente” com que justificamos o nosso direito idiota à indignação com o dever ainda mais idiota de nos sentirmos indignados.

Sem querer colocar mais achas na fogueira, as reacções que o vídeo da Maitê Proença provocou, não foram mais que isso: ela é culpada, eu estou indignado por algo que ela fez. Só significa que temos um caminho longo e divertido para fazer enquanto povo.

Outro óptimo exemplo, também recente, se passou com o livro Caim do Saramago. De repente os sectores ligados à igreja católica atiraram-se ao ar condenando o livro, numa reacção previsível e provocada pelos publicitários do Saramago. Esta polémica estéril rendeu a Saramago a venda de 80 mil cópias do livro em duas semanas, mais do que qualquer outro livro dele num ano, com excepção do “Evangelho Segundo Jesus Cristo” que usou a mesma fórmula de publicidade e conseguiu o mesmo tipo de resultados nas vendas.

Voltando ao tema, tu não tens o direito de te indignares.

“Indignar-se” significa “tornar-se indigno” e esse é um direito que tu não tens sobre ti mesmo nem sobre qualquer outra pessoa.

Num confronto de discussão tentas sempre tornar o outro indigno e com isso indignas-te e esse não é um direito teu.

Já pensaste bem no que aconteceria se em vez de quereres ter razão escolhesses ser amável?

Já viste como esta tua atitude de amabilidade modificaria as ligações no teu cérebro (o teu chip) e te tornaria mais atento ao que a outra pessoa está a tentar dizer?

E já viste que poderias mesmo ouvi-la? E entendê-la? E fazer mesmo algo que pudesse “dignificá-la” em ver de a “indignar”?

E já pensaste o que isso faria por ti mesmo? Pela tua felicidade, alegria e realização pessoal?

Quanto a ti não sei, mas eu não me deixo indignar por ninguém. Esse é um poder que ninguém tem sobre mim. Em vez disso sou amável porque essa é a única forma conhecida de transformar as pedras em pão.

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