“Pobreza não é miséria, miséria é não partilhar nada com ninguém, com medo que nos faça falta.”

Um dia fui com a minha irmã ao hospital, para ela fazer uns exames. Deixei-a à porta e parti, de carro, à procura de um lugar aprazível onde ligar o meu computador e ir online. Encontrei-o numa pastelaria.

Estacionei o carro e, antes mesmo de fechar a porta, tinha um rapaz sorridente com um bilhete de estacionamento na mão a olhar para mim e a perguntar: “quer este bilhete usado que lhe dá até às 10 horas?” Eram 9h15. Agradeci, coloquei o bilhete no interior do carro e dei 50 cêntimos ao rapaz. Se eu tivesse ido à máquina buscar um bilhete para uma hora custar-me-ia 30 cêntimos, mas eu apreciei o engenho e a simpatia dele. Dei-lhe, de bom grado mais dinheiro a ele do que daria à máquina pelo mesmo serviço.

Instalei-me numa mesa, na esplanada, e comecei a trabalhar. Os 45 minutos de validade do bilhete passaram rápido e tive de ir à máquina buscar outro. A minha irmã iria demorar. Coloquei algumas moedas na ranhura e saiu um bilhete com validade até às 11h55, praticamente duas horas.

Voltei então para o computador. Passados uns minutos apareceu um homem muito magro, muito miserável, roto, curvado, com uma voz muito humilhada, a pedir umas moedas para comer uma sopa. Dei-lhe uns cêntimos. Impressionou-me o facto de ele seguir com os olhos a minha mão saída do meu bolso, e acompanhar com a cabeça todos os meus movimentos até eu largar na mão dele meia dúzia de moedas pequenas, uns 30 ou 40 cêntimos, se não estou em erro.

No momento em que as moedas caíram na mão dele, ele endireitou-se, muito direito, e afastou-se de mim como se eu tivesse lepra. Fiquei a olhar para as costas direitas dele a pensar que mal é que eu lhe tinha feito. Nem agradeceu, nem sequer olhou para mim, somente para o dinheiro.

Lembrei-me então do primeiro, que me deu o bilhete usado de estacionamento. Ele não pedia dinheiro a ninguém, pedia os bilhetes usados a todos os que levavam os carros. Quase todos os bilhetes tinham ainda tempo disponível. Então ele procurava os carros recém-chegados e oferecia esses bilhetes aos condutores com um sorriso franco de quem está a fazer um favor de boa vontade. Como eu, quase todos os condutores aceitavam o bilhete grátis e davam uma moeda em agradecimento.

A situação de ambos era semelhante: sem dinheiro. O do parque de estacionamento encontrou uma forma de, não tendo nada, oferecer alguma coisa. Tornou-se contributivo com inteligência. O segundo pedia esmola e fugia como um ladrão.

Claro que cada um terá as suas razões para agir como age. Contudo todos temos razões para sermos Madres Teresas ou para sermos Hitlers, é só uma questão de escolher o que procurar.

O telefone tocou e sacudiu-me destes pensamentos. A minha irmã estava pronta. Enquanto arrumava o computador no saco e pagava o café fui percorrendo com os olhos o parque de estacionamento à procura do rapaz.

Achei-o. Fui ao carro e dei-lhe o meu bilhete que ainda tinha uma hora de validade e ainda mais um euro pela sua boa-atitude e diligência.

Ele desejou-me boa viagem com alegria e foi a correr dar o meu bilhete usado a outro condutor que acabava de estacionar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.